|
Artigo: Santo Currículo
Por Profª Janete Teixeira Dias
Em tempos de desemprego, a vida dos selecionadores de Talentos Humanos nas empresas se transforma num grande martírio. Haja currículo para ler, analisar e decidir quem escolher para a vaga a ser preenchida. Isso tudo sem levar em consideração que existe uma pressão forte para que a escolha seja acertada, uma vez que toda contratação implica em custos para a instituição contratante. Dessa forma, cabe àquele que está efetuando a seleção, procurar acertar logo da primeira vez. Tal pressão torna o campo de atuação do profissional ainda mais tenso e a tarefa de quem elabora um currículo, mais trabalhosa. A seguir, algumas dicas que podem auxiliar a leitura e análise de um currículo.
- Currículo sem objetivo específico é um documento próximo da zona de descarte. Pois, a regra é apresentar as informações a respeito da carreira profissional do candidato, levando-se em consideração o alvo pretendido. Se este alvo não está identificado, o currículo fica desfocado, genérico e confuso. É um erro deixar por conta do selecionador a percepção sobre a área que seja mais adequada para o pretendente a uma vaga. O recrutador deve resistir à tentação de acreditar que é capaz de adivinhar os anseios do candidato, pois na maioria das vezes, quando o objetivo não está claro, o “dono do currículo” tende a permanecer por pouco tempo na empresa, pois nem sempre a vaga para o qual ele foi selecionado era a que ele pretendia. Assim que surgir a primeira oportunidade, o empregado vai sair da empresa.
- Currículo com inconsistência nos dados fragiliza a credibilidade em relação ao profissional analisado. As experiências relatadas devem, necessariamente, estar em harmonia com as competências que o profissional afirma possuir. Divergências de datas; incongruências entre tempo de atuação nas empresas e o tempo de experiência na área informados pelo candidato; divergências entre o cargo informado e as atividades desenvolvidas, tudo deve ser cuidadosamente analisado.
- Currículos muito extensos, daqueles que parecem uma dissertação, e que só de olhar já cansam a vista, não são bem-vindos. Para quem tem uma pilha de currículos para analisar, ficar diante deste desafio é um convite a descartar o documento o mais rápido possível. O candidato ao emprego tem que ter em mente que necessitará exercitar sua capacidade de síntese, para oferecer a maior quantidade de informações possível, incluindo-se aqui alguns dos principais resultados conquistados nas empresas em que a pessoa já trabalhou anteriormente, mas tudo escrito de uma forma objetiva e interessante, para garantir que o material seja lido até o final e o selecionador não se deixe abater pelo cansaço ou desânimo provocado por um currículo mal elaborado.
- Currículo com dados muito antigos pode ser sinal de que o profissional não está atento à sua atualização no mercado. Demonstra também uma falta de flexibilidade ou rigidez em relação a alguns paradigmas adotados no passado e que, mesmo tendo decorrido alguns anos, o profissional permanece apegado a eles, em detrimento aos novos conceitos utilizados em sua área de atuação. Um exemplo disto é aquele currículo que ainda traz informações sobre a habilidade de datilografia do candidato, bem como a data em que o mesmo concluiu este curso e obteve seu certificado. Podemos imaginar que tal certificado ainda se encontra em um quadro, pendurado na parede, em sua sala de visitas.
- Currículo sem informação sobre cursos extracurriculares. O candidato que está atento ao seu desenvolvimento profissional, à sua atualização constante na sua área de atuação, terá vários cursos extracurriculares a informar. Aqueles que não apresentam esta informação tendem a ter um perfil muito restrito, por vezes desatualizado. Um currículo assim pode ser interpretado como uma trajetória muito limitada, concentrado em conhecimentos acadêmicos obtidos nos cursos de formação apresentados. É desejável que os candidatos revelem suas escolhas mais específicas em termos de aprimoramento de conhecimentos e caminhos de especialização trilhados. A ausência destas informações deve conduzir o selecionador a uma maior expectativa em relação à experiência relatada pelo candidato, bem como aos resultados conquistados nas empresas em que trabalhou anteriormente.
- Currículo sem os dados de contato. Com um currículo assim não se deve nem perder tempo. Se a pessoa quer ser localizada, este aspecto é fundamental! Para quem recebe um currículo nesse estado, a mensagem que pode ser entendida é de que a pessoa que o elaborou não tem uma visão clara do processo do qual está participando, nem tem boa capacidade de organização, planejamento e observação. Portanto, se estas competências são importantes para o desempenho do cargo para o qual a pessoa está concorrendo, ela deve ser deixada de lado, pois são questões que ela ainda não tem desenvolvidas.
- Currículo com foto. Solicitar foto para o candidato, somente quando isto for extremamente necessário e realmente agregar algum valor na escolha da pessoa para a vaga, pois, em geral, não se usa colocar foto nos currículos. Nos casos em que esta necessidade for detectada, orientar os candidatos a enviar foto com uma apresentação adequada à atividade a ser realizada. Fotografias muito esquisitas, em trajes ou poses sensuais, não devem ser aceitas. Tal situação pode ser interpretada como uma inadequação da pessoa ao posto pretendido, bem como indícios de problemas futuros envolvendo temas relativos a assédio sexual nas organizações.
- Currículo com pretensão salarial. Se este aspecto for importante para a escolha do profissional a ser contratado, deve ser solicitado pelo recrutador aos candidatos. Pelo valor da pretensão salarial informada no currículo, é possível que o selecionador verifique se o profissional tem noção dos valores praticados no mercado; se sua experiência está em sintonia com a expectativa salarial; ou se há uma incongruência entre estes dois aspectos. A recomendação é que se consulte a base salarial da categoria à qual a vaga pretendida pertence, para que a negociação aconteça de uma forma mais tranqüila e transparente entre contratantes e candidatos. Em geral, este aspecto tem sido abordado nos momentos finais da entrevista, quando outras questões do perfil do candidato já foram checadas e aprovadas.
- Currículo impresso. Ao receber um currículo impresso, observe se ele está bem cuidado, num papel limpo, se causa uma boa impressão, se ele tem um bom layout, se os espaços da página foram bem aproveitados, se há algum rabisco, acréscimo ou correção de informação feito a lápis ou a caneta. Esta análise traz a percepção de aspectos relativos à organização e ao planejamento na apresentação das informações. Se estiver impecável, demonstra que o concorrente ao cargo investiu neste primeiro contato, que valoriza a empresa onde deseja trabalhar e que as competências acima citadas podem estar presentes em seu perfil.
- Currículo em arquivo anexo ou no corpo da mensagem, quando recebido por e-mail. Muitos têm dúvida em relação a isto. Se o recrutador optar por receber os currículos através de e-mail, o mais recomendável é que solicite que o mesmo seja disponibilizado no corpo da mensagem, evitando desta forma que sejam recebidos e abertos arquivos com vírus. A utilização deste canal de comunicação também pode ser interpretada como habilidade desenvolvida pelo candidato em relação aos recursos de informática disponíveis no mercado.
- Currículo com informação de pouco ou muito tempo de permanência nas empresas. Aqui é importante ressaltar que não se deve ter pressa em concluir que o candidato é uma pessoa instável ou acomodada demais. É um julgamento superficial. Hoje em dia, muitos lugares contratam profissionais para trabalhar em projetos de curta duração. Muitas empresas também contratam para trabalhos temporários, outras preferem contratar como Pessoa Jurídica. Enfim, são tantas as formas de vínculos que se estabelecem no campo do trabalho, que vale a pena investigar um pouco mais sobre esse aspecto com o candidato. Muitas vezes será possível descobrir um indivíduo bem talentoso, com um perfil totalmente diferente daquele que se imaginou ao ler seu currículo. Para checar melhor este aspecto, o selecionador deve atentar para os resultados informados pelo candidato, os cargos que ocupou, os projetos em que participou. Nem sempre o fato de ter ficado muito pouco tempo numa empresa é mau sinal. Assim como nem sempre a estabilidade numa empresa é um bom sinal. Tudo é muito relativo! Em relação a um candidato que esteve durante muitos anos numa mesma empresa, deve-se analisar a forma como ele aproveitou este tempo em que esteve nesta instituição e quais as oportunidades que teve de crescimento e como lidou com elas. Em ambos os casos, é muito interessante que se complemente a percepção que se teve do candidato através de uma entrevista, onde esses aspectos devem ser questionados para que sejam esclarecidos.
Parece complicado, mas não é! A análise cuidadosa de um currículo é a garantia do início de uma relação saudável entre o Talento Humano buscado no mercado de trabalho e o selecionador que tem a missão de construir uma equipe de sucesso dentro de uma organização. Portanto, acredite: um currículo bem analisado é capaz de livrar o selecionador de seu martírio de encontrar o profissional desejado pela empresa, realizando, na vida de todos os envolvidos nesse processo de contratação, um verdadeiro milagre!!!!
|